– Gra, querida, por que você não vai para Paris? Vai fazer o que na Índia sozinha? – perguntou doce mas indignadamente minha querida tia, enquanto mexia em uns papéis em sua agência de viagens, onde fui comprar a passagem.

A escolha pela Índia não foi por ter lido algum livro sobre esse pedaço milenar do globo, não. Eu não tinha lido nada a respeito. Não conhecia sobre a cultura ou o lugar. Tinha apenas imagens na mente que poderiam ter sido impressas ao assistir alguma reportagem bonita do Globo Repórter. No entanto, eu sabia que era para lá que eu queria ir.

Lá eu conseguiria sentir um choque cultural. Queria incorporar um tipo de novo, de diferente, de diverso. Queria vivenciar algum tipo de experiência que me confirmasse que a vida que eu levava em Campinas, que meus hábitos e padrões até ali seguidos sem questionamento eram só escolhas entre muitas outras. Não me conformava em estar meio infeliz, dentro de um estado anestesiado, morno. Queria intensidade, cores fortes e quebra de paradigmas.

Por que eu não poderia ser mais feliz? Estar mais em paz, mais segura de mim mesma, com mais autoestima, mais liberdade? Por que eu não poderia ter mais intimidade com as pessoas, ter relacionamentos mais profundos e verdadeiros? Sentia-me aprisionada, cega, oca por dentro, viciada nos mesmos pensamentos e hábitos.

Eu estudava Psicologia à época, mas achava que o conhecimento que me passavam ali todos os dias por seis ou sete horas era tendencioso e pobre. Havia muita revolta dentro de mim. Eu achava que o tempo passava e eu mantinha protocolarmente meu bumbum colado em uma velha e pichada cadeira, em uma sala mal cuidada, ouvindo professores sem paixão, sem vigor, falarem automaticamente, seguindo um currículo vazio.

Esta era a minha visão radical.

A esta altura eu dava mais valor ao meu próprio pensamento hostil e orgulhoso. Acreditava que a verdade tinha apenas um aspecto e este era sempre absoluto. Se alguma abordagem psicológica fizesse algum sentido para mim, mas depois trouxesse uma ponta sequer de incompatibilidade com meus pensamentos, eu já a descartava; não conseguia seguir adiante.

O mesmo acontecia em várias outras situações. Quando lia algum livro que gostasse, se houvesse alguma parte que me desagradasse, já o dava por perdido. Algo morria dentro de mim. A curiosidade já estava manchada pela frustração. A imagem idealizada de mim e do mundo nunca era sustentada.

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