Entrevista com Dona Alzira (empreendedorismo)

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Moro na rua Carlos Weber, na Vila Leopoldina em São Paulo. É exatamente a rua que eu sempre sonhei morar a minha vida inteira. Tem padaria, farmácia, academia, doceria, restaurantes, bares e ainda é uma rua calma, arborizada e bonita.  Mas uma das coisas mais especiais é a doceria da Dona Alzira. Lá tem  salgados e doces que você quer ficar devorando até estourar o zíper da calça.

 

Faz algum tempo que venho me interessando pelo perfil empreendedor de algumas pessoas. Quando ando pela rua noto a quantidade de lugares que abrem e fecham num curtíssimo espaço de tempo. Hoje eu sei exatamente que lugar vai fechar e qual vai durar – e sempre acerto. Lugares vazios, logo fecham. Felizmente para a alegria do bairro a “Skina da Alzira” não dá sinais de fechar e está há 20 anos no mesmo local.  Resolvi entrevistar a dona Alzira para saber o que tem de especial a criadora dos salgados que me obrigam a atravessar a rua em períodos de dieta.

 

Alzira é uma senhora de cabelos brancos, tem uma fala firme e doce. É dona de si mesmo e sempre foi. Conta que começou fazendo salgados em casa e vendendo na porta da escola onde os filhos estudavam. Tinha por volta de 30 anos. Com o tempo ela foi aumentando a sua freguesia e teve que abrir seu próprio espaço fora de casa. Na verdade ela começou com 9 anos de idade, vendendo na praia os salgados que a sua mãe fazia.

 

Seu carisma, ousadia e meiguice levaram Alzira a vender tudo aquilo que tivesse em suas mãos. Abaixo alguns trechos da entrevista com ela:

 

P: Dona Alzira onde você aprendeu a cozinhar?

R: “Aprendi com minha mãe. Quando era criança, morei em Santos e lá ela fazia cocada e coxinha e vendíamos na praia. Fazia sacolinha e íamos vender. Eu adorava. Minha irmã tinha vergonha mas eu não, sou atirada, sempre gostei de negociar. Aprendi com a minha mãe a fazer muitas coisas, mas vender era natural em mim.

P: A vergonha não cabe nessas horas né? Só atrapalha.

R: Sim, mas eu nunca tive vergonha de oferecer nada, nem na porta do colégio. Eu colocava tudo no porta-malas do carro e ia oferecendo. Quem comprava uma vez, já virava freguês. A mercadoria sempre foi boa, nunca fui atrás do mais barato, sempre a qualidade em primeiro lugar.

Fiquei pensando que estou revendo meus conceitos sobre “venda”. Cresci achando que venda era coisa ruim. Essas palavras vendedor, vendas, comércio, não descia muito bem na minha casa. Lembro que uma vez a mãe de uma amiga me pediu para vender uns biscoitos na escola e assim que terminou o recreio e todo mundo começou a sentar para assistir à aula que ia começar, perguntei  para uma amiga que estava do outro lado da sala :

– Fulana, você não quer comprar isso aqui né?

– Eu? Eu não…

Pior momento, pior lugar, pior abordagem. Eu achava que não tinha nascido para vender. Hoje entendo que vender é uma arte única que envolve muitos tipos de habilidades. Outra coisa interessante é que eu achava que vender era o mesmo que pedir um “favor” que seria o outro comprar. Mas nada mais errado do que isso, vender pode até ser encarado como “fazer um favor” que é apresentar algo de valor para a outra pessoa para melhorar a vida dela.

Até hoje nós profissionais da área da saúde, temos dificuldades em vender os nossos serviços. Não queremos exposição ou marketing. Mas como viver sem  hoje em dia, nesse mercado super competitivo?

P: Você está há 30 anos nesse ramo da alimentação, entre docerias e padarias. Quando foi a época mais difícil?

R: Quando tive padaria eu não sabia nada sobre o negócio e tive que aprender tudo na marra. Ninguém que trabalhava comigo sabia o que fazer. Mas eu que tinha resolvido fechar negócio e tinha que tomar decisões. Eu lembro de pegar os pãezinhos e levar nos prédios para oferecer, para as pessoas conhecerem nosso pão. Mas aprendi tudo fazendo.

Isso é outro ensinamento importante. A teoria é boa, mas tem que estar a serviço de alguma prática. Para que serve só a teoria. No meu caso, passei tanto tempo da vida sem fazer, sem arriscar e até hoje me vejo paralisada muitas vezes. Essa mulher ensina a pôr o pé na estrada e arriscar. Aprender fazendo, arriscando, apresentando o seu produto ou serviço para as pessoas certas.

P: O que você acha que tem de qualidades que te ajudam a manter o seu sucesso por tantos anos?

Eu não desisto de nada que me proponho. Vou sempre para frente. Trabalho com firmeza. Não tenho vergonha, não sou orgulhosa.

P: Muitas pessoas dizem que trabalhar em família não dá certo. Como tem sido para você?

R: Sempre trabalhei com a minha irmã e sempre me dei bem com ela. Depois os filhos vieram trabalhar comigo, meu marido também. Todos temos ritmos e cabeças diferentes. Tem haver respeito e confiança, para mim tem dado certo.

Esse é outro ponto: muitas pessoas preferem não trabalhar com familiares porque já partem do princípio que não vai dar certo. Pela experiência dela não é totalmente verdade. Algumas pessoas conseguem trabalhar em família e manter bons relacionamentos. É claro que é preciso respeitar o outro, comunicar com clareza e querer também esse clima familiar na empresa. Talvez seja um desafio a mais porque muitas questões emocionais acabam interferindo no dia a dia.

P: E sobre as finanças? Como você cuida dessa parte?

“Comecei do nada, não tinha nada nem casa para morar. Hoje tenho apartamentos, uma casa alugada, tudo com esse trabalho. Sempre fiz conta, marcava tudo o que gastava e ganhava. A gente guardava muito.

Alzira ainda falou que é completamente organizada. Em sua cozinha consegue manter limpeza e ordem impecável. Além disso, todas as receitas são milimetricamente reproduzidas para que toda esfira sempre tenha exatamente o mesmo gosto.

 

Resumindo as pérolas da dona Alzira

  • Ousadia
  • Exposição
  • Aprender fazendo
  • Respeito
  • Persistência
  • Organização
  • Limpeza
  • Controle financeiro
  • Método.

E fica a pergunta: por que tantos estabelecimentos fecham nesta rua e em muitas outras?

Imagine o tanto de investimento de dinheiro, tempo, energia que as pessoas colocam num empreendimento, para depois passar pela frustração de fechar o negócio carregando culpas e dívidas?

Fica o exemplo da guerreira Alzira, que não desiste, que ama o que faz, que inclui seus familiares, que é corajosa, ousada e que nos deixa muitos estômagos satisfeitos e humores alegres.

E para nós profissionais que não queremos exposição, que guardamos o nosso serviço dentro de quatro paredes… acho que essa época já passou.

 

Saiba mais sobre a autora:

http://www.grazielabergamini.com.br/Sobre

 

 

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