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Minha primeira experiência com Ayahuasca

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Chegamos. Há 30 anos espero por isso…o momento fluiu naturalmente…sem esforço…não deu para negar.
Abracei a oportunidade com todo o meu ser.

A casa de madeira, linda, simples. Muitos instrumentos indígenas e de outras origens espalhados, na verdade perfeitamente organizados pela sala. Tapetes e almofadas, tornando o ambiente muito acolhedor.
Sentamos, ouvimos as palavras sabias do Pierre. Uma preparação.

“Olhe para o fogo. Lembre que existe o fogo, a luz, por mais difícil que pareça.
Esse é o meu barco, eu sou o capitão, e ninguém nunca não voltou, todos voltaram.

O propósito é o autoconhecimento.
Ninguém vai te salvar, você consegue sair sozinho. Eu estou aqui, mas não vou te salvar, vou estar presente e alerta, mas vc tem que saber que pode sair sozinho.”

Fiquei o dia inteiro me preparando. Tomei sopa de raízes: beterraba, cenoura, nhame, gengibre. Fiquei elevando minha vibração, ouvindo palestras do Pathwork. Fiz a mala, colocando todos os itens importantes que o Pierre havia recomendado: tapetinho, almofada, água, meias, um objeto significativo, simbólico.

Eu estava muito ansiosa. Esse chamado me acompanhava, eu sentia que a medicina me chamava desde que lera “A erva do diabo”.

Nunca nada fluiu bem nesse sentido e eu realmente tinha medo e não estava preparada. Mas agora sim, eu estava.
Eu me sentia uma guerreira, coloquei a roupa certa, chacoalhei meu espirito, elevei minha mente, peguei meus objetos sagrados, reuni toda a coragem, peguei espada e escudo, e pronto. Estava ali, naquela noite especial. Agora tudo tinha fluido perfeitamente. Recebemos o convite no dia anterior, assim nem deu tempo de eu ficar ansiosa demais.

De volta na sala escura, com apenas duas velas acesas, me aproximei do Pierre para pegar a taça de pedra com a bebida, voltei ao meu lugar e esperei que ele servisse os outros. Dado o aval, virei o copo num golpe só.
“Que delícia” – pensei.
“Só eu mesmo para gostar de um sabor que todos dizem odiar…. Meu avô me fazia tomar carqueja, isso aqui pra mim, não assusta”. Olhei pro Babi e sorri.
Esperei.

À minha frente havia uma janela enorme de vidro, com arvores grandes do lado de fora, muitos galhos e folhas, que em algum momento, deveriam falar comigo. Ou era o que eu esperava. Ou então eu veria algum espírito voando, me dando sinais e enviando mensagens.
Nada.

Depois de uns 40 minutos Pierre pergunta: alguém aqui não está sentindo a “força da medicina”? Sotaque francês, engraçado.
Eu não estava. Levantei a mão rapidamente. Cheguei perto dele e fui servida de mais uma dose, que com um golpe confiante, joguei pra dentro do meu esôfago.
Esperei.

Tomar Ayahuasca, é prática sagrada. Não é para ficar doidão, não é feito numa festa, num ambiente aleatório. É uma prática de cura, dentro de um ritual com esse objetivo muito definido, de conhecer nosso universo interior composto de sombra e luz.

Eu sentia que na minha vida de vigília, talvez eu não fosse muito mais longe só pelo mental, meus recursos pareciam ter acabado. No mental eu andava em círculos. Eu queria mesmo algo que me provocasse, me estimulasse, me desafiasse a transcender os limites.

Esperando as ervas me darem algum recado, sentada, quieta, fui pra trás e encostei num um objeto que me incomodou. Logo pensei, antes mesmo de ver o que era:
“Ah o celular do Babi, só podia ser as coisas do Babi no meu caminho”.
Então olhei pra trás e era meu próprio caderno de anotações dificultando meus movimentos. Imediatamente percebi o que eu estava fazendo e quantas vezes o tinha feito na vida. Culpar o babi por coisas bobas, das quais eu mesma era a culpada. Senti a dor de fazê-lo culpado. Fiquei em oração, dizendo mentalmente o quanto eu sentia muito de ter feito isso tantas vezes.

Vontade de vomitar, vergonha, todo mundo muito quieto e comportado, eu não seria a única a pôr os demônios pra fora. Levantei e saí para fazer isso no jardim. Nenhuma luz, só a natural. Era noite, sem lua, mas a claridade estava presente, eu via as plantas, as árvores, as bananeiras, eu via tudo e nada me era estranho. Sentia que eu conhecia esse mundo completamente, eu fazia parte da natureza, era minha família que me amava mas da qual eu me mantive alheia por milhares de anos de encarnações superficiais.

Fui vomitar entre as bananeiras. Agachei, pus o corpo pra frente e gorfei algumas vezes. Não saia nada sólido, apenas algum líquido e provavelmente impurezas energéticas. Senti minha calça rasgar. Rasgou inteira a ponto do bumbum aparecer. A camisa cobria, eu me sentia estraçalhada, como a calça.

As bananeiras se comunicavam comigo na língua dos sentimentos e diziam que estavam ali para me acolher, “manda bala que a gente dá um jeito”. Elas conversavam entre si e riam um pouco de mim.
Voltei pra sala, descabelada, cambaleando, fraca, com a calça rasgada. Olhei para o Babi e ele estava deitado elegantemente, de lado, braços cruzados, respirando em silencio, concentrado na experiência dele. Senti um amor profundo. Olha a gente aqui, nessa aventura depois de 20 anos. De vez em quando ele fazia um carinho em mim, como que confirmando a sua presença, seu amor e suporte.

Comecei a ficar com calor. Uma lareira imensa, um fogo ardente me incomodava. Que calor. Eu olhava as pessoas, todos quietos, concentrados, aparentemente sem sofrimento.

Eu queria sair correndo gritar, entrar no meio da mata. Lembrava sempre o Pierre no inicio: “não saiam para a mata. Fiquem aqui perto. Não quero
ir procurar ninguém lá longe, perdido sozinho na sua viagem”.

Levantei fui deitar na rede.
Agora meus demônios estavam acordados completamente. Eu me sentia um lagarto. Eu tinha pele seca, comecei a questionar se na realidade, eu era um lagarto. Imagens de língua, escama, repteis horríveis, invadiam a minha mente. Eu queria parar com tudo. Chega, não está nada bom. Esse cara quer nos matar com esse fogo. Estou no inferno, isso é o inferno.

Em toda a cerimônia, ele colocava musicas que no início achei lindas, mas com o passar do tempo, foram ficando densas, lúgubres, demoníacas. Ele tocava instrumentos e cantava. Eu estava encantada e ao mesmo tempo apavorada com todo aquele ambiente.

Deitada na rede tentando me livrar da ideia de ser um lagarto, a esposa do Pierre vem me chamar para entrar. Fiquei com raiva: como assim? Eu faço o que eu quero. Ninguém manda em mim.
Apenas pensei, obedecendo na hora e entrando na sala brava com ela e com a minha obediência. Sentei.

Ainda com muita vontade de vomitar, peguei o balde e vomitei o q para mim, pareceu uma longa expulsão do lagarto. Algo parecia que estava saindo de dentro de mim, algo que morou por muito tempo no meu interior.
O barulho grave, longo, da expulsão do corpo e do rabo do lagarto.

Deitei no chão exausta, fraca, suando. Eu estava finalmente no inferno, pagando por todos os meus pecados. Isso era o inferno. Eu já fui, eu to lá, eu conheço, ele é mental.

De repente, o Pierre se aproxima, e passa uma pena longa de ave, por todo o meu corpo, trazendo paz, leveza e vento para a minha fornalha interior.
Nesse momento, os tambores, os cânticos, a conexão com a minha essencia humana, me fazia vibrar de alegria com aquela experiência, a mais louca de toda a minha vida.

Logo voltei ao meu inferno de estimação. Achei que tinha que olhar meu celular pra ver se os filhos estavam bem. Os dois em lugares diferentes. Me deu uma imensa preocupação com eles, não sabia se ia até minha bolsa e olhava o celular. “Que mãe de merda, que negligencia. Se meus filhos precisarem de mim eu não estarei.”
Eu já não conseguia andar e ir até minha bolsa. Nas orientações do Pierre, ninguém deveria pegar no celular.
Deus eu coloco meus filhos nas suas mãos. Muita proteção, por favor, proteja meus filhos.

A sombra tinha gravidade, eu tentava subir para respirar luz, mas a escuridão me puxava para baixo. Eu tentava sair, mas era sugada … como que me afogando em lama. Eu culpava a musica, culpava o externo.
Musica linda e de terror ao mesmo tempo.

De repente aparece o rosto de uma amiga muito amada, muito familiar mas eu não conseguia identificar quem era. Agonizei um pouco perguntando de quem era aquele rosto e por que estava ali?
“Esse rosto é a combinação de todas as suas amigas” . Me veio essa resposta.
Comecei a chorar. Que amor pelas minhas amigas.

Me vi entre os baldes de vômito, as águas e papel higiênico meu e dos vizinhos. Sem espaço para me mover. Presa entre esses objetos, que impediam a minha liberdade de movimentar. Por que estou assim, sem liberdade de movimentos? Por causa de dois baldes de vômito?
De alguma forma, deve ser isso que venho fazendo com a minha vida. Impedida por razões totalmente fracas. “Gra, é só remover os baldes”.
Coloquei tudo para trás, os baldes e os papéis higiênicos.
Agora eu podia mexer os meus braços.
Agora eu estava muito mais livre.
É isso, é simples. Não são montanhas, são baldes leves, praticamente vazios. É só tirar da frente mesmo.

Fui melhorando, as músicas ficaram mais amenas. A esposa do Pierre as vezes cantava com uma voz doce de embalo e esperança. Comecei a descansar na compreensão e em todas as conexões que eu tinha feito.
Muita aprendizagem.

Acabou o ritual, foi feito um fechamento, muitos agradecimentos. Fui melhorando, abrindo os olhos, voltando para a sala. Levantei fui respirar lá fora, o dia estava clareando, sons de passarinhos do dia, já fazendo parte do cenário. Troquei algumas experiências com o Babi, agradeci os anfitriões e fomos embora em estado de graça.
As flores com cores mais vivas, os verdes mais brilhantes, a vida com mais significado e um sentimento interno de força. Uma grande força em mim parece que havia sido acordada.

Não se cura nada sem passar pela dor e pela sombra. Não adiantam afirmações positivas sozinhas, se o terreno está infectado com os nossos demônios interiores. Esses têm seu papel, precisam ser vistos e ressignificados.
Que sejam bem vindos num ambiente seguro.

Nota: não recomendo o uso dessa substância, sem que haja uma forte preparação espiritual, mental e física.
Sou terapeuta há 20 anos e sinto esse chamado há 30. Só agora as coisas fluíram e eu encontrei um bom capitão de barco e um bom momento para viver essa experiência.

9 thoughts on “Minha primeira experiência com Ayahuasca

  1. Uau, Gra!
    Você sempre surpreende.
    Não me vejo utilizando deste recurso para o autoconhecimento, mas admiro aqueles que têm essa coragem.
    A auto análise, o enfrentamento e o perdão são essenciais para a cura e prosseguirmos a caminhada.
    Em mim, a mente aguçadíssima na auto crítica é meu maior espelho (algoz e Salvador complacente ao mesmo tempo).
    Sei que há muito a se percorrer… Mas é preciso muita coragem para se olhar de frente e transformar-se numa versão melhorada de si mesmo.
    Parabéns pela sua jornada e por dividir conosco.

    1. Ahh Ju, a mente pode ser uma das nossas maiores inimigas quando usadas no lugar errado! A gente precisa aprender a sentir de verdade, no sentir está a cura! Obrigada pelo comentário e participação por aqui! Beijoo

  2. Muito legal sua experiência. Acho que é bem isso que você disse, para ver a luz é necessário passar pelas sombras. Parabéns pelo texto.

  3. Impressionante seu relato, Graziela! A experiência de cada um, é única… Já vivenciei essa força algumas vezes, e realmente é força inexplicável. Gratidão pela partilha!

  4. Acredito que tenha chegado aqui através de um link no Facebook. Gostaria de saber o que o dirigente do lugar falou para você depois dessa prática.
    Os eventos que acontecem durante a prática com a ayahuasca nada mais são que os mesmos estados interiores que vivemos no dia a dia, mas não conseguimos perceber. Uma frase que me ajudou a compreender que a vida é muito maior que as narrativas mentais é a seguinte: Se eu sou essa voz na minha cabeça, quem está escutando?

  5. Consagro desde 2004 e, eu tb, cheguei “levado pelos meus próprios pés”, impulsionado, é claro, por encadeamentos da vida toda. Da mesma forma, fiz um escaneamento bombástico dos meus aprisionamentos no campo mental e, na prática, com o passar dos anos, tive a certeza de que a Planta gosta mesmo é dos “cabeçudos”, rsrsss… Os infernos!!! Ah! Na instituição eu falguei todos os cargos até chegar ao de “sub-capitão”. Errei: caí na cilada dobegobe me permitir confundir a medicina com a instituição. Saí! Continuo consagrando, em família. Mas cresce em mim, cada vez mais, outra certeza: esta Escolha não é da Mente, mas do Espírito. Sua história me emocionou, me vi muito nessas linhas. Faço votos que continue a trazer pro papel, sairá um livro muito interessante! @biaggiolic

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